sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Apagão

     Na noite de quinta-feira, poucas horas antes do apagão, eu estava trabalhando como recepcionista em um show beneficente em prol do Instituto de Cegos da Bahia. A festa estava animada e, pela primeira vez em contato com um deficiente visual (que estava também recepcionando os convidados), eu refletia sobre como deve ser triste viver na escuridão.
     De repente, tudo se apagou, me vi na escuridão. E a agonia tomou conta das pessoas no local. De diversas partes do país, ligações eram recebidas: "Você também está no escuro?".
    Sem iluminação, a euforia dos convidados acabou. O fim da festa foi inevitável. Meu colega de recepção se despediu e foi ao encontro de sua acompanhante. 
    Caminhando para a saída, a moça, que enxergava perfeitamente, ia na frente, guiando o meu colega cego. Ele caminhava depressa e ela reclamou: "Devagar! Está escuro! Eu não enxergo!". Com um sorriso de canto de boca, ele respondeu: "Não. EU não enxergo. Me deixe ir na frente, vou te guiar até a saída."

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Em defesa das novelas da Globo

Antes de qualquer coisa, me coloco aqui como uma pessoa do sexo feminino que sofre, quase que diariamente, preconceitos de gênero. E espero que ninguém ache que estou fazendo apologia ao racismo ou incentivando o conformismo diante de qualquer tipo de discriminação.

Em uma das minhas últimas aulas do semestre na faculdade, houve uma discussão acerca da proibição da distribuição do livro "Caçadas de Pedrinho", de Monteiro Lobato, na rede pública de educação básica. Sou totalmente defensora de que a literatura (e a arte, em geral) é a melhor forma de análise do pensamento de qualquer época e acho que qualquer pessoa é capaz de concordar com isso. Na minha visão, essa tentativa de proibição é apenas mais um dos paliativos que nós, brasileiros, tanto gostamos. Ao invés de capacitar os professores para ensinar às crianças a nossa história, avaliar os fatos do nosso passado e construir a necessidade das mudanças, é preferível eliminar de vez qualquer coisa que possa ser mal interpretada.

Nenhum dos que defendiam a "censura do livro" conseguiu sustentar bons argumentos e acabaram mudando de opinião.

Eis que alguém resolve comparar Tia Anastácia às empregadas domésticas das novelas. E ressaltar que absurdo mesmo é, em pleno 2012, a televisão colocar explicitamente os ricos brancos e os pobres negros. Quem realiza os serviços domésticos é sempre uma mulher negra. A dona da casa é sempre branca. O marido é sempre quem ganha mais e sustenta a família. O motorista é sempre um pobre coitado nordestino. Que mídia absurdamente discriminadora!!

Não. Eu continuo defendendo que todas as formas de arte (sim, novela é arte!) são a melhor forma de análise do pensamento de uma época. Ou alguém vai querer negar que, no Brasil, pobre e preto são quase a mesma coisa? Ou que o homem é quem sustenta a mulher? Ou que as elites são formadas de pessoas brancas?

Antes de colocar a mídia manipuladora e preconceituosa em questão, analisemos a sociedade que consome essa mídia. Eu não acompanho novelas, não sou defensora da Rede Globo, mas tenho certeza de que a ficção é totalmente baseada na realidade. Se as pessoas não pensassem deste jeito, as novelas não seriam deste jeito. Vamos parar de colocar a culpa em tudo e fazer o que pudermos para que, daqui a algum tempo (pouco tempo, Deus, por favor), as pessoas assistam as nossas novelas e pensem "Nossa, como a desigualdade racial era normal em 2012! Ainda bem que isso não existe mais."

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Fora do comum: O amor

Ao fazer uma mesma pergunta para várias pessoas, nos deparamos com algo fascinante: As divergências de opiniões. Como isso sempre me chamou a atenção, eu resolvi pedir para conhecidos aleatórios fazerem um breve comentário sobre RELACIONAMENTOS ABERTOS. A escolha do tema se deu por observar vários fatos: A união homoafetiva foi legalizada, as mulheres estão assumindo o comando dos lares, o modelo tradicional de família está mudando, estamos nos deparando, cada dia mais, com novos formatos de relacionamento... Então porque não discutir?

Acho que é impossível afirmar com precisão de onde surgiu a ideia do RA, mas um caso sempre me atraiu: Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre mantiveram um relacionamento onde a monogamia não era obrigatória. Ambos acreditavam que, antes de serem amantes, eram escritores, e multiplicar as suas experiências só iria ajuda-los.

”O que me entristece é que o casal permaneça unido pelo hábito, pela pressão social… Logo que dois seres se sentem ligados não tanto por se amarem, o que era libertação e plenitude transforma-se em angústia e prisão. Sartre e eu nunca vivemos juntos e sempre consideramos ser livres de correntes que nos prendessem um ao outro. Se permanecemos unidos toda a vida, foi porque nos amávamos profundamente e porque, livremente, sempre tivemos vontade de estar um com o outro. E isso é a coisa mais bela que pode acontecer a um ser humano. O amor dá força e coragem para enfrentar o mundo e a vida, a dois e não a um só. É muito!” (Simone de Beauvoir)

Historicamente, a nossa cultura ocidental é monogâmica e estabelece como essencial a certeza da fidelidade física. Infelizmente, essa tal fidelidade é, muitas vezes, uma ilusão, visto que somos animais e também estamos vulneráveis a agir por impulso e temos desejos que vão além do amor. Para mim, assumir um RA é conseguir separar sexo de amor e, principalmente, confiar no sentimento do outro. Particularmente, os relacionamentos abertos são os que eu mais acredito, já que há ali uma extrema confiança, a relação é baseada na amizade e na sinceridade.

De todos os argumentos que recebi contra o RA, o mais convincente passa pelo ciúme (mais uma das consequências do nosso instinto animal que nos faz agir por impulso). Somos egoístas, não somos capazes de “dividir” o que é nosso. Esse talvez seja um dos grandes defeitos dos relacionamentos atuais: Queremos o outro só pra gente, mas não conseguimos ser só do outro. Para aceitar que nosso parceiro tenha desejos por outras pessoas, é necessário ter o sentimento de posse bem mais controlado que o normal.

Outro fator que considero individual, mas extremamente válido, é a convicção de que só o ser amado nos basta. Acabamos caindo em uma discussão abstrata: Quando amamos, nos sentimos saciados com o corpo do outro, com os carinhos do outro e desejar outra pessoa é indício de que não há mais um sentimento tão grande. Eu discordo, acho que não existe alguém no mundo capaz de desejar apenas uma pessoa por toda sua vida, mas não tenho argumentos, é apenas uma impressão sem base concreta.

A fidelidade física talvez não seja algo determinante. Fidelidade é um conceito amplo, ligado à confiança que um deposita no outro, se refere ao quanto nos sentimos seguros em nossos relacionamentos. Admitindo que temos desejos outros, não existirá traição.

De todas as opiniões que recebi pouquíssimas foram totalmente a favor do RA, mas eu gostei muito de perceber que a maioria das pessoas entende que um relacionamento deve ter o formato que for conveniente a quem o vive e que o amor é que deve estar acima de tudo!

Obs.: Esse texto foi escrito em dezembro de 2011.

sábado, 11 de agosto de 2012

Caminhando tranquilamente pela rua estavam uma mãe e a sua filhinha, muito feliz por carregar consigo uma bexiga cor-de-rosa. Um pouco atrás, caminhava também um rapazinho sujo e muito mal vestido. A presença do garoto só foi percebida quando ele começou a correr em direção às duas e pronunciar algumas palavras amontoadas. Cega de desespero, a mãe puxou a menina pelo braço, entrou a toda velocidade em um táxi qualquer e partiu. O garoto continuou correndo, desta vez em direção ao carro onde se encontrava a linda menininha que deixou cair a bexiga cor-de-rosa, que ele tanto se esforçou para devolver.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Sempre há um jeitinho...

Em tempos de eleição, é praticamente impossível não ter alguns momentos de reflexão sobre o charlatanismo. Não há coerência nas promessas e atitudes, não há o mínimo respeito com o eleitor. Mas a minha maior frustração vem do povo, que se convence com a [nossa velha conhecida] política do populismo. Também conhecida como política de manipulação das massas, política do "cale a boca que eu estou te dando Bolsa Família".

Mas está explícito que esse tal charlatanismo não finda no campo político. Sabemos que o nosso povo está sempre buscando caminhos alternativos pra facilitar o dia-a-dia (para amenizar os termos). E é daí que surge uma das minha maiores inquietações: Seria o comportamento dos políticos reflexo do comportamento da população ou o comportamento da população é um reflexo do comportamento dos políticos? Quem veio primeiro foi o ovo ou a galinha? Infelizmente, acredito que esse é um ciclo vicioso muito, mas muito mesmo, difícil de ser interrompido.

Esses dias vi algumas manifestações na internet contra um comercial televisivo, classificado como cômico, em que o desejo dos homens é ficar invisível para poder abusar sexualmente das mulheres (olhem que eu não vou nem entrar na discussão do machismo, estupro etc). É exatamente esta a nossa cultura: desde que não seja punido, posso fazer o que eu quiser. Algumas pesquisas comprovam que a maioria dos homens não hesitaria em estuprar caso o estupro não fosse crime. Que sociedade animalesca é essa? Precisamos ser domesticados para que consigamos viver em grupo. É essa a espécie considerada pensante, superior? Tudo é válido para tirar vantagens, sejam elas sexuais ou financeiras (ao meu ver, são essas as maiores necessidades do modelo atual de homem civilizado).

Em alguns estudos superficiais sobre Roberto da Matta, percebi que esse "jeitinho brasileiro" não é novidade pra os sociólogos e antropólogos. Suaves transgressões às regras já são toleradas, e as crises éticas já impregnaram todas as eferas da nossa sociedade. E, quando me refiro à crises éticas, não falo só de corrupção. Estou incluindo o racismo, o machismo, a homofobia, o especismo e todos os seus semelhantes. Pra mim, a discriminação é o pior tipo de crise ética imaginável (mesmo entendendo que todos esses comportamentos têm raízes históricas, a ética citada é corrupção, blá, blá, blá, eu sei de tudo isso).

Então, se tantos estudiosos não conseguiram chegar à conclusão nenhuma, quem sou eu, né? Só sei que ainda tenho esperanças de que algum dia as pessoas se conscientizem de que a educação é o caminho para a mudança, percebam que essa necessidade de colocar todos na universidade é só uma forma de mascarar a podridão que é o ensino básico, que o populismo tem sido uma eficaz maneira de calar a população. Que acabe a ilusão de que isso é política afirmativa. Sonho apenas com um país onde todos tenham as mesmas oportunidades, independende de cor, gênero, opção sexual, classe social etc., um lugar onde vence na vida aquele que se esforça e se destaca.

P.s.: Sobre a pergunta do ovo ou da galinha, não posso deixar de compartilhar a fantástica e surpreendente resposta que me deram: É claro que a galinha veio primeiro, Deus criou todas as criaturas.
Quando a vontade de ler diminui, é sinal de que é a hora de começar a escrever.